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Gustavo Werneck

O amor ainda é uma tipologia muito simples

por Gustavo Werneck em 12 de agosto de 2011

O amor ainda é uma tipologia muito simples

Quando escrevi a crônica “É possível ter amor” e adiante fora selecionada para compor meu primeiro livro “O Ter Acima do Ser”, ela se fez numa ebulição naquele ano de 2005, quando publicada no jornal. Houve pessoas fãs de Clarice Lispector e Cecília Meireles tensas com o texto, porque não criam naquilo que soava pra mim, como uma esperança mística, imbuída no simples gesto de acenar tamanha presença que o amor há de servir ainda nesta vida. Chico Buarque fez a proclamação na canção “Todo Sentimento”: “O amor caiu doente.” É verdade…

O amor está doente, sim, pois a impressão que tem é a diminuição do jeito em segui-lo, por partir desde a forma de atentar olhar percussivo, num aconchego docemente feito para lembrá-lo, jorrado sem dimensão em conjunto nas poesias de Drummond e Vinícius estando naturalmente desta forma na contramão dos significados defeituosos, explanados na voracidade da mídia em geral.

Drummond escreveu “As Sem Razões do Amor”. Poesia lírica, motivado sem ambivalência como se aquele texto fosse um manual para resgatar um sentimento, que o mundo perde nas mãos do progresso desesperado, evolutivo, acionado por uma glândula qualquer, no final de um trilho, sem rumo prescrito. “Eu te amo porque te amo”, a pergunta justifica a intenção. Assim Drummond inicia seu poema perguntando e respondendo pra si as indagações tipo: “Amor foge a dicionários/ e a regulamentos vários.”

Vinícius compôs “Soneto do Amor Total” – um hino de acordes batidos no coração – jeito moleque de ser, homem grandioso na ação esquecendo que o medo existe, somente para alimentar o próprio coração. Vinícius, um poeta que procurou externar a paixão acima dos preceitos constituídos, por um tempo cujo preconceito entre as diferenças sejam elas quais forem enalteciam as diferenças.

Em “Soneto do Amor Total” o poetinha sagrado logo na primeira estrofe exalta a paixão absorvente: “Amo-te tanto meu amor… não cante/ O humano coração com mais verdade…/ Amo-te como amigo e como amante/ Numa sempre diversa realidade./” Quando no mesmo ano de 2005 lançara o cd “Que Falta Você Me Faz” Maria Bethânia disse em entrevista a seguinte frase: “Não se fazem mais homens como Vinicius.” Afinal não se fazem mais pessoas que sejam correspondentes do amor, subliminarmente Bethânia quis dizer isso.

O que se vê é um falso amor. Um amor de revista, um amor irreal. Um amor palpado na superficialidade, nutrindo o amor capitalista e inflacionário: péssimo para este governo. A obrigação em assistir o inexistente, faz da vida um conto de fadas – assim por dizer, gerador da dor profunda e silenciosa: a frustração. A literatura de mãos atadas com o cinema e as novelas vendem esse sonho irreal. Ganham dinheiro e por fim seus expectadores lotam consultórios de psicólogos para sanar o vazio. Estar vazio é uma síndrome sincopada dos novos tempos, no entanto não se podem acreditar naquelas pessoas com sorrisos demasiados nas capas, exaltando bundas, peitos siliconizados, sexos intermináveis. Não se pode crer em casais em eternas felicidades, como se ali os problemas passassem longe, nunca havendo um ciúme, uma briga, um olhar torto, uma palavra maldita e até um pênis brochado.

Em tempos quando a busca incessante por algo não determinado pulveriza o vazio dentro das pessoas, o amor é feito como uma política para sanar objetivos. Ter o próximo por bem estar, grana, poder, isso que é estar em venerar o veneno numa maldade própria, que não apaga dentro da corporação do organismo, mas paga com sua energia o despejo ao lavradio por um desejo úmido pelo esgoto sacramentado num oportunismo cafajeste.

O amor é vadio, vendido numa visão pessimista – tacanha. O amor não veste a filosofia engendrada de fato. Mudaram o amor. Ele não fuma Drummond, nem se tem o cheiro de Vinícius. Os abraços são frios, sonolentos, sem sentido verdadeiro nele. Os beijos pérfidos fazem dele uma espécie de adeus singular, sem pressa, lembrança, por quê? Porque o amor… Bem, ele mal cuidado passa por um dócil erro ao acalantar total leveza hipócrita, haja vista descuidada daquilo quem é si próprio, pois na solidão dentro da multidão, jamais será dissipada na água errante do espelho que é a mente, o que é o sentimento do amor fugaz.

O amor ainda é uma tipologia muito simples, pra ser preenchido entre o frio, vinho e fogo, que lançam chamas, essas sim, desassossegadas a entrar numa vida e fazê-la dela o esquecimento do tempo, mas olhar e ser algo verdadeiro, apenas isso: o amor.

Gustavo Werneck é jornalista

E-mail: werneckgustavo@yahoo.com.br

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